Poucos nomes na história da música brasileira brilham com a intensidade de Antônio Carlos Gomes, e paradoxalmente, poucos são tão esquecidos. Nascido em Campinas, São Paulo, em 11 de julho de 1836, Carlos Gomes foi o primeiro compositor brasileiro a alcançar projeção internacional no mundo da ópera, especialmente na Europa do século XIX onde disputava atenção com os grandes nomes do romantismo musical como Verdi e Puccini.

Filho de um maestro da banda local, Carlos Gomes mostrou talento musical desde cedo. Estudou no Conservatório Imperial do Rio de Janeiro e, posteriormente, recebeu uma bolsa do imperador Dom Pedro II para estudar no Conservatório de Milão, na Itália, uma honra incomum para um sul-americano naquele tempo. Foi lá que ele se destacou, tornando-se o primeiro não europeu a ter uma ópera estreada no prestigiado Alla Scala de Milão, com o sucesso retumbante de “O Guarani”, em 1870.
“O Guarani”, baseada na obra de José de Alencar, foi uma revolução cultural: um brasileiro, com uma temática genuinamente nacional, ganhava as luzes da cena lírica europeia. Depois vieram outras óperas como Fosca, Salvator Rosa, Maria Tudor, Lo Schiavo e Condor, obras que aliam dramaticidade romântica, harmonias refinadas e sensibilidade melódica. Carlos Gomes faleceu em 16 de setembro de 1896, em Belém do Pará, em meio a dificuldades financeiras e problemas de saúde, após ser nomeado diretor do Conservatório de Música da cidade.
Ao ouvirmos sua obra hoje, é impossível não reconhecer sua genialidade. E aqui faço questão de trazer minha análise pessoal: para mim, Carlos Gomes é o compositor que escreveu as aberturas de óperas mais lindas que existem. O Guarani, claro, é mais conhecido e até virou tema de abertura de rádio, mas há joias ainda mais emocionantes em sua produção. A abertura de Lo Schiavo, por exemplo, é profundamente comovente, cheia de lirismo e força dramática. E agora, ouvindo a gravação da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais no Spotify, me deparei com uma que me tocou profundamente: a Abertura de “Fosca“, com lirismo impressionante, e de uma beleza que para mim, sinceramente, acho mais interessante e profunda do que muitos hits famosos da época. Carlos Gomes tinha uma assinatura única: suas melodias envolvem, sua harmonia surpreende, e suas orquestrações elevam o espírito.
Mas se Carlos Gomes foi tão grande (e foi!), a pergunta que paira no ar é inevitável:
Por que nós, brasileiros, conhecemos tão pouco essa figura?
Seu nome está em ruas, avenidas, escolas de música, auditórios e praças. Porém, quantos brasileiros realmente sabem quem foi ele? Quantos já ouviram O Guarani, Lo Schiavo ou Fosca? É como se tivéssemos erguido um monumento simbólico e o deixado coberto por um pano de esquecimento.
A resposta para esse apagamento é complexa. Passa por fatores como o elitismo historicamente associado à música de concerto, a falta de valorização da própria cultura erudita brasileira, o declínio da educação musical nas escolas e até mesmo o preconceito com figuras que, como Carlos Gomes, desafiaram as normas de seu tempo (vale lembrar que Lo Schiavo era uma crítica ao regime escravagista, em pleno século XIX). Além disso, o Brasil sempre viveu um paradoxo cultural: admira o que é estrangeiro, mas esquece seus próprios filhos ilustres.
Para mudar essa realidade, é preciso resgatar Carlos Gomes nas escolas, nos projetos culturais, nos festivais, na mídia, e principalmente, nos ouvidos e no coração das novas gerações. Tocar sua música, ouvir suas obras, contar sua história com entusiasmo e clareza são ações urgentes. Professores, músicos, jornalistas, educadores e gestores culturais têm um papel essencial nessa reconstrução de memória.
Nesse sentido, vale destacar iniciativas importantes como o recente lançamento pela Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, que registrou com primor aberturas sinfônicas das óperas de Carlos Gomes. É uma porta de entrada poderosa para quem quer conhecer sua obra: vigorosa, dramática, profundamente brasileira em essência. A sonoridade dessas aberturas revela o gênio que encantou a Europa e que hoje pede para ser ouvido de novo pelo seu próprio povo.

Ouvir Carlos Gomes é mais do que apreciar boa música: é um ato de reconexão cultural. É afirmar que nossa história musical vai além daquilo que o mercado impõe. É dar ouvidos ao Brasil profundo, criativo e ousado que ele representou.
Que tal começar hoje? Procure o álbum da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais – Aberturas de Carlos Gomes, e permita-se redescobrir um dos maiores nomes da música brasileira. E, ao fazê-lo, ajude a responder, com atitude e escuta, à pergunta que ainda nos envergonha: Por que esquecemos Carlos Gomes? E o que estamos fazendo para relembrá-lo?



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